
Acho que podemos começar explicando o que são sonhos, que tal?
Não sei, vou pegar café e acender um cigarro, depois penso no que falo.
Mas o que você vai falar aqui? Cê acha mesmo que vai ser interessante?
De que importa? Inferno, são só irrealidades oníricas, são sonhos acordados e vívidos!
Mas e se eles notarem a realidade dentro da irrealidade?
Bem... aí acho que eles vão ser obrigados a sonhar também, né?
Hehehehe, você não presta.
Cala a boca, é difícil escrever com você falando tanto.
A ilha era quente e tinha um vulcão. Era cercada de ilhas menores e tinha até um rio em uma delas. Um rio raso com chão de cascalho. O vulcão parecia ser inofensivo. Podia-se ver ao longe todo o verde da ilha e o contraste que fazia com o mar claro e o céu incolor. Havia uma pedra longa na praia e não se viam animais, como se vêem em filmes. Silêncio ensurdecedor, barulhos imperceptíveis. Um ar de mistério, dor e medo, mesclado a uma euforia e liberdade impressionantes. O Céu de Arcádia. O Inferno de Dante. Tudo isso misturado em uma aura simbólica quase impenetrável.
Eu não me lembro de minha roupa ou do motivo de estar ali. Me sentia herdeiro de alguma coisa, uma peça em um tabuleiro enorme de algum jogo oculto. Não uma marionete, não um controlador. Um eu desprovido da mácula que é o conceito do eu. Onirismo explícito e sabedoria que transavam em busca do infinito.
Algumas pessoas estavam comigo, não me lembro bem de quem eram. Lembro de uma ou duas vezes ter visto tudo de cima, como se eu fosse onipresente naquele lugar. Me senti enjoado quando voltei ao chão da última vez e notei que as pessoas me olhavam de um jeito diferente. De repente, gritos e uma vermelhidão e me vi no meio do mar, vendo a ilha de relance. Um homem magro e negro com uma máscara africana me olhava ao longe, e uma ou duas pessoas me olhavam e pareciam esperar o que eu iria fazer. Nadei até uma ilha próxima e olhei a Ilha com uma certa ira. Ali era meu reino, eu tinha que voltar. Peguei um caiaque (ou um pedaço de madeira, que diferença faz?) e remei até perto da ilha. Perdi o remo no caminho e vi o homem de máscara na minha frente, me impulsionando pra voltar. Os meus companheiros fugiam e eu estava atrás deles. Queria a liberdade. Queria voar.
Súbito, estava suspenso sobre as águas, correndo sobre elas com maestria e velocidade. Tomei impulso. Subi.
Voei alto e ao chegar ao topo notei que não era o meu eu. Senti meu corpo na cama e meu corpo no sonho. Caí, no rio de cascalho, com uma vontade imensa de chorar. Emocionado, não sei por que.
Me levantei e corri em direção às árvores. Caí de costas, em um buraco. Em uma árvore, uma teia. Nessa teia, as respostas.
Tudo girou, me vi em uma rua. Acabara de chover. Via pequenas gotas cairem sobre as poças nos cantos e notei que a arquitetura não era familiar. Nunca estivera ali, e ainda pensava na Ilha.
Isso é um Sonho, tome cuidado - alguém sussurrou. Senti um frio na espinha e notei que havia alguém ali. Quietus est - sussurro. Uma mulher me olha de uma das portas. A porta, fechada atrás dela, tinha um número e nesse número, um signo. Não me lembro quais são eles.
Ela me devorava e me apavorava. Ela me chamara ali, e eu não sabia a troco de que. Nunca, em minhas experiências, eu havia sido chamado a algum lugar para interagir. Talvez para testemunhar, talvez para ouvir. Para ser, nunca.
Onde está seu Deus?
Eu... eu não sei.
O que veio fazer aqui?
Eu fui chamado aqui, não?
Você não é mais tão criança. Vai aonde quer.
Um click em minha mente. Notei-a por completo. Sabia quem era, sabia o que queria. Repito a descrição dela sobre o que aconteceria, como parte de um ritual.
Venha, é tempo de nos possuirmos.
Doma-me, marca-me a carne
Já não temos tempo para os jogos. Venha. Não quero reverência, quero que me devore a alma e cuspa o universo que há em mim.
Abismos, cores, sons e perguntas incompreensíveis.
Acordei com a sensação de orgasmo e a vontade de chorar.
Hehehe, mas que post meia boca heim?
Isso é um sonho, seu idiota.
E você acha que as pessoas vão entender isso?
De que me importa?
Eu te conheço bem, rapaz. Sei das suas ânsias e dos seus medos. Não se esqueça, sou eu quem sussurro.
Acendo um cigarro.
Eu sei. Eu sei.
Ele sabe que eu perdi a fé.

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